A civilização é uma corrida entre a educação e a catástrofe. Jamais essa afirmação de H.G. Wells fez tanto sentido para mim como depois de viver essa experiência de ajudar a abrir uma escolinha para crianças refugiadas no Malawi.
Passei quase 30 anos de minha vida de professor e coordenador pedagógico atuando em escolas de alto performance no Rio de Janeiro. Atuei principalmente nos segmentos do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio. Em janeiro de 2020, a convite da Fraternidade Sem Fronteiras, interrompi a minha carreira profissional, como educador e como jornalista, para vivenciar essa imersão profunda. Uma equação que envolve tempo, saúde, família, parar com os trabalhos profissionais e seguir firmemente um propósito interior.
O Dzaleka Refugee Camp fica num dos países mais pobres do mundo, o Malawi.  O Campo é uma faixa de terra cedida pelo governo do Malawi, em 1994, para que a ONU pudesse assentar os sobreviventes do massacre de Ruanda, onde quase um milhão de africanos morreram numa guerra étnica envolvendo Hutus e Tutsis. Antes, nesse local, havia uma prisão. Meus amigos refugiados com quem tive o privilégio de dividir a casa da Fraternidade sem Fronteiras durante essa missão de 4 meses, Maick e Frank, me explicam que era a prisão mais terrível do País. Somente os piores bandidos eram mandados para lá. Dzaleka, em chichewa, significa: o fim da linha. Para os refugiados que ali chegam, contudo, esse local se tornou um porto de esperança para uma vida nova.  A dificuldade do acesso a água dá a primeira dimensão de fragilidade que eles enfrentam. Ao todo, são 16 poços artesianos distribuídos dentro do Campo, atendendo quase 45 mil refugiados. Como fazer bem e como fazer várias vezes ao dia o processo de higiene recomendado pelas autoridades sanitárias em tempos de pandemia se não existe água em abundância?
O Dzaleka é uma mistura de línguas, etnias, culturas, tradições e crenças. Retrata bem o que é a África com toda sua diversidade, originalidade e riqueza, mas também com todas as suas dores e diferenças. Eles vieram do Burundi, da Tanzânia, Zâmbia, Etiópia, Somália e, principalmente, da República Democrática (?) do Congo. Não há trabalho. Pela sua condição de refugiados, eles não podem assumir um emprego formal. Fazem bico. Biscate. Qualquer coisa para tentar melhorar o provimento que recebem do ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados): 2.250 kwachas (mais ou menos 15 reais), 350ml de óleo, 1,5kg de feijão e dois pedaços de sabão. Médicos, profissionais liberais, engenheiros, funcionários públicos, artistas… o campo está povoado de gente talentosa que precisa fazer malabarismo para que esse provimento se estenda por 30 dias. Não podem exercer sua profissão num País que ostenta um dos piores IDHs do planeta. Faz parte do acordo celebrado com a ONU quando o Campo foi inaugurado, mesmo 26 anos depois.
As aglomerações são inevitáveis. As casas, feitas em sua maioria com o barro do próprio solo do Dzaleka, são pequenas e acomodam famílias com muitas crianças. Muitas perderam seus pais na fuga e são acolhidas em novos lares. Existe muita solidariedade em meio a tanta carência. Um lockdown total nesse cenário pode representar uma tragédia. Talvez por isso, mesmo depois de ter decretado o fechamento total, o presidente Peter Mutharika tenha voltado atrás e adiado o enclausuramento. Medidas que valem para países desenvolvidos, costumam não ter o mesmo resultado num local de tanta miséria onde a principal luta é pela comida.

A noite começa a chegar perto das 5 da tarde. O pôr-do-sol repete o espetáculo da manhã mas é incapaz de repetir a pintura, a intensidade dos tons e a magnitude de um espetáculo que parece, outra vez, convidar os refugiados a se recolherem em suas casas. Escurece cedo e as pessoas evitam circular durante a noite. O Campo é um lugar de paz mas, talvez pelo histórico de vida, pelos traumas que viveram, a maioria evita sair de casa nesse horário. Os becos ficam escuros e boa parte dos barracos também. Em meio a esse silêncio, ruídos de crianças chorando, um voz mais alterada aqui ou acolá, um canto religioso, uma prece. Nada parece abalar a fé dessa gente. Aqui, sim, Deus acima de tudo e de todos. E eles realmente acreditam, e creio que isso os mantém vivos, que amanhã há de ser outro dia.
A Ubuntu Nation School foi minha primeira experiência diretamente com Educação Infantil. A inspiração para o currículo e a organização das atividades veio da Pedagogia Waldorf.  Com a parada obrigatória por conta do Covid-19, seguimos preparando os alimentos para serem entregues para as famílias dessas crianças e de tantos outros refugiados. Essa Mapokezi (termo em Swahili que indica a distribuição de alimentos) é sempre um dia que emociona muito. As pessoas chegam numa alegria absurda porque vão receber milho, feijão, um pouquinho de óleo e açúcar. As mensagens importantes por aqui precisam viajar por ao menos 3 ou 4 idiomas: inglês, francês, chichewa e swahili.
No dia em que comunicamos aos pais o fechamento da escolinha por determinação do governo em função da pandemia (naquele momento nenhum caso havia sido diagnosticado no Dzaleka), uma das mães, com uma criança no colo e outras ao seu lado, levantou-se e disse: “Vocês vão fechar a escolinha que tanto ajuda nossos filhos por causa de uma ameaça? Esse vírus é uma ameaça invisível, ninguém sabe se ele já está entre nós ou se um dia vai chegar por aqui. Mas, a fome, a fome é real. Ela está aqui. A gente pode ver e sentir. O que pode ser pior do que isso?” Seguiu-se um silêncio eterno. Pesado. Dentro de mim, ele continua fazendo barulho. Aquela mãe tem razão. Como convencer uma pessoa que luta desesperadamente contra a fome a se preocupar com o Covid-19… dificil! Deve haver outro caminho para a humanidade na direção de diminuir o abismo que estamos construindo cada vez maior entre os países desenvolvidos e as nações que seguem na miséria. E, tenho certeza, esse é um momento especial para conversarmos sobre o tema.
Deixar o conforto da minha casa e da minha rotina e partir, como voluntário, foi a decisão mais difícil que talvez eu tenha tomado na minha vida. Hoje entendo o quanto ela foi necessária. Como ela me ajudou a crescer como ser humano e expandir minhas leituras sobre nossos irmãos africanos. Nesse Campo eu conheci pessoas as mais extraordinárias talvez com quem já tive o privilégio de conviver. Todos os dias eles fazem questão de tornar sua fé e sua alegria pela vida em algo significativamente maior do que seus traumas, suas perdas, suas tragédias pessoais e coletivas.
Abrir-se para a experiência do encontro com outros mundos, línguas e culturas e tornar-se mais humano, não julgar, não colocar-se como superior. E aprender com as diferenças. Estamos chegando a incrível marca de quase 80 milhões de pessoas deslocadas pelo mundo. Síria e Venezuela, segundo o ACNUR, lideram esses números. São quase 28 milhões de refugiados. Não! Não dá para dizer que estamos avançando. O mundo precisa abrir os olhos para essa realidade.
No dia em que visitou a ilha de Lampedusa, no Mar Mediterrâneo, o papa Francisco colocou, simbolicamente, um colete salva-vidas sobre uma cruz. Era de uma criança refugiada que morreu na travessia. Ele disse: nem o Cristianismo, nem qualquer outra religião, tampouco nenhum governo ou cidadão deste planeta deveria dormir tranquilo enquanto não diminuirmos o abismo que separa seres humanos de uma forma tão agressiva. Faz sentido. Muito!
Precisamos falar mais sobre isso.
Imagens, vídeos e outros depoimentos aqui: @evaldojosepalatinsky (instagram)

Evaldo José Palatinsky

Evaldo José Palatinsky

Jornalista, Professor, Consultor Pedagógico do Liessin, Coordenador Voluntário de Educação na Fraternidade Sem Fronteiras.