As mulheres estão ganhando cada vez mais espaço na ciência e tecnologia, mas, ainda é preciso avançar. Uma pesquisa realizada no ano passado pelo LinkedIn (2019) mostra que, entre 2008 e 2016, o número de mulheres que ocupam cargos de liderança no setor de tecnologia é de apenas 18%, e se inferimos a categoria raça/etnia esse número é ainda menor, chegando à apenas 2%.

Nossas práticas culturais são bastante marcadas por preconceitos de gênero, que muitas vezes iniciam-se na infância. Deste modo, a área científica e tecnológica têm  muito o que evoluir. A ideia de que “homens são de Marte e mulheres são de Vênus” não desaparece da noite para o dia, nem mesmo nos laboratórios das Universidades, ou no ambiente corporativo das grandes empresas.

O problema de gênero nas carreiras científicas, vai muito além da discriminação pura e simples – passa por todo um sistema (verdadeiro “gargalo”), que não leva em conta as particularidades inerentes ao fato de se ser mulher. Por isso, mesmo em 2020 (século XXI), se faz necessário iniciativas que promovam a inserção de mulheres,  principalmente nas áreas tecnológicas. 

A diferença chama ainda mais atenção quando se considera que o número de mulheres no ensino superior – nos cursos de bacharelado, licenciatura e de tecnólogo – é relativamente maior que o de homens que concluem a graduação no país. O Censo da Educação Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) dá conta de que, em 2015, elas somaram quase 550 mil entre os graduados, ao passo que entre os homens, o número foi pouco menor que 370 mil. O gargalo pode não necessariamente estar no acesso à carreira científica. – O problema é a permanência na carreira. É preciso ter muita persistência. A observação faz muito sentido, quando se considera que a fase em que mulheres desistem da carreira científica é justamente o pós-doutorado, um estágio já avançado da vida acadêmica. 

Outra vez, a escolha por ter uma família pesa como impeditivo para que elas continuem a progredir para outras posições na hierarquia das universidades: a produtividade e o ritmo de viagens que muitas destas posições exigem são incompatíveis com os papeis atribuídos no cuidado doméstico. O fato de não haver licença-maternidade remunerada durante mestrado, doutorado e pós-doutorado provoca um desnível que faz com que o abismo entre gêneros seja ainda maior. As mulheres continuam sendo, uma parcela pequena nos cargos de chefia e diretoria nas universidades – que é um lugar onde não deveria haver esta desigualdade. 

A academia reproduz o sistema cultural dominante. Para as pesquisadoras, mais do que discutir o machismo ainda presente no mundo científico, é preciso colocar o funcionamento do sistema acadêmico em questão, em que pesam esquemas de financiamento e prestígio no plano simbólico.

Por essas e outras justificativas, se faz necessário a implementação imediata de atividades que forneçam a inserção de mais mulheres nas ciências e no meio tecnológico.

Mas, ‘como nem tudo está perdido’, temos em mente que o ‘futuro é feminino’. Essas frases nunca fizeram tanto sentido, se formos analisar historicamente a trajetória feminina nas Ciências e Tecnologia. 

Quando Mae Jemison era criança, parecia improvável que ela um dia teria a chance de se tornar astronauta, quando todos eram homens brancos. Mas, ao ver a personagem Uhura na série de televisão ‘Star Trek’ deu a Jemison a inspiração de que ela precisava para marcar seu nome na história como a primeira mulher negra a ir para o espaço.

E a gente pode perceber que inspirações são importantes. Quando se fala de ciência, todos conhecemos grandes nomes como: Albert Einstein, Isaac Newton, Charles Darwin ou tantos outros… mas, quantas mulheres cientistas inspiradoras conhecemos?

Marie Curie talvez seja o nome mais lembrado. Ela fez tantas descobertas sobre a radioatividade que o próprio termo “radioatividade” foi cunhado por ela, além de descobrir dois novos elementos da tabela periódica: o polônio e o rádio. Mas, existem outras grandes cientistas além de Curie.

Quem também descobriu um novo elemento foi Lise Meitner: o protactínio. Ela ainda descobriu a fissão nuclear quando percebeu que átomos de urânio se dividiam em outros átomos ao serem bombardeados com nêutrons.

As cientistas não pararam por aí. Chien-Shiung Wu, cujo nome significa “corajosa heroína”, refutou um princípio físico quando provou que o princípio de conservação de paridade, que determina que partículas simétricas devem se comportar da mesma maneira, não se aplica a todas as partículas.

Já Vera Rubin confirmou a existência de matéria escura observando a velocidade com que as estrelas giram ao redor do centro de uma galáxia.

O universo também foi objeto de estudo de Cecilia Payne, que descobriu que o Sol e as estrelas são compostos principalmente por hidrogênio e hélio, ao invés de ter a mesma composição da Terra como se acreditava na época. E das aproximadamente oito mil estrelas que se pode observar a olho nu no céu noturno, Annie Jump Cannon classificou 50 vezes mais esse número, tornando-se a maior “colecionadora” de estrelas que já viveu,

Vindo do céu para a Terra, numa época em que se acreditava que o fundo do mar era plano e homogêneo, Marie Tharp mapeou o solo marítimo e descobriu diversas montanhas e vales submarinos, provando a existência de placas tectônicas e a teoria da deriva continental.

Indo ainda mais fundo que o fundo do mar, a sismóloga Inge Lehmann estudou o interior da Terra, e descobriu que além da crosta, manto e núcleo líquido, a Terra possuía também um núcleo interno sólido.

Mulheres também fizeram grandes descobertas no nível microscópico do corpo humano. Rosalind Franklin tirou fotografias do DNA que a permitiram ver que a molécula tinha uma estrutura de dupla-hélice.

Barbara McClintock descobriu a transposição genética, capacidade dos genes de mudarem de lugar no cromossomo e “ligar” e “desligar”, um fenômeno ligado a mutações genéticas e com importante papel na evolução das espécies.

Nettie Stevens descobriu que são os cromossomos X e Y que determinam o sexo de um bebê na hora da concepção, e não a temperatura do ambiente, a alimentação da mãe ou outros fatores externos como se acreditou por muito tempo.

Mulheres ainda criaram novas tecnologias! Stephanie Kwolek contribuiu para o desenvolvimento do elastano, presente em muitas das nossas roupas, e inventou o Kevlar, um material mais leve e cinco vezes mais forte que o aço, que é usado desde em luvas de forno e coletes à prova de balas, até aparelhos celulares e trajes espaciais.

A computação também só é o que é hoje graças a grandes mulheres. Ada Lovelace tornou-se a primeira programadora do mundo ao escrever o primeiro programa de computador para a Máquina Analítica, precursora dos computadores modernos.

Grace Hopper popularizou o termo ‘bug’ na computação por causa de uma mariposa presa em um computador. Ela também criou o primeiro compilador, um tradutor que transforma sequências binárias em uma linguagem mais compreensível para humanos.

E Hedy Lamarr não só alcançou fama mundial como uma das maiores estrelas de Hollywood do século 20, como também inventou a tecnologia de frequência variável, que possibilitou o desenvolvimento de diversos tipos de comunicação sem fio usados atualmente, como o Bluetooth, Wi-Fi e GPS.

Estas mulheres são apenas alguns exemplos dentre tantos outros que provam que não há limites para uma cientista. Do interior das células do corpo humano aos computadores, de um minúsculo átomo aos confins do universo: elas venceram barreiras e fizeram grandes descobertas, tornando-se pioneiras em seus campos e mostrando que ciência também é coisa de mulher.

Hoje, elas são inspiração para outras mulheres e meninas, também alcançarem seus sonhos, como o meu ao fundar e idealizar o ‘Meninas na Ciência – UFRJ’, para que desta forma, possamos permitir que no futuro a interrogação do título deste texto seja a afirmação: CIÊNCIA E TECNOLOGIA PELOS OLHOS DELAS.

Gabriella da Silva Mendes

Gabriella da Silva Mendes

Fundadora do projeto “Meninas na Ciência - UFRJ”. Mestre em Educação em Ciências e Saúde pelo Instituto NUTES e Graduada pelo Instituto de História da UFRJ.